mas a vida é real e de viés.
hoje fui à varanda e olhei para a lua, tão bonita, e me lembrei de você. tive a sensação de que você também olhou e lembrou de mim. mas sei que de um jeito diferente, porque talvez já não me ame mais. fico tentando pensar quais atitudes teriam feito tudo ser diferente. e aquela coisa de fractais, efeito borboleta, probabilidades, enfim, toda aquela coisa vai tomando a minha cabeça de uma maneira... o movimento que eu faço pra trancar a porta me lembra um momento exato do seu rosto olhando pro meu, dizendo, sem nada dizer, a coisa mais bonita que eu já ouvi.
por que então você foi embora, eu me pergunto quando a luz automática do corredor apaga, e o elevador ainda não chegou. naquele pequeno e familiar escuro, eu me pergunto o que eu poderia ter feito - quando? onde? - para que você não tivesse ido embora. os números em vermelho vão passando, e eu lembro das coisas que os seus olhos me diziam e que, mesmo depois de tudo acabado, nunca foram ditas de forma tão bela pela boca de nenhum outro. me pergunto, diante da infinidade de reflexos que o quadrado de espelhos do elevador produz, por que você mente pra si mesmo, por que você tem tanto medo de mim.
o meu amor se escondeu tanto, não é? eu sei... mas você não pode me desculpar por isso? e passou tanto tempo... e, agora, quando eu saio de casa e não é você que está me esperando no carro parado em frente ao meu prédio, eu penso o que valeu a pena em me poupar tanto. e queria poder dizer a você, transmitir a você, para que você não se poupe agora. e é assim, nessa espera não sei se inútil, não sei se necessária, que eu desperto todas as manhãs misturando os rostos: o seu - sempre - e o de mais alguém - o que me espera no carro, o que me liga todos os dias ou aquele que sente saudades... - e o seu, qual é? como eu posso classificar, de que eu posso chamar? e vou dormir com esse nó no peito, arrancando cabelo, engolindo gilete.
porque sei que houve um tempo em que já não sabia mais qual parte de mim era eu qual era você. eu acho que você era a parte que doía. você era quase tudo então. e é por isso que eu já não posso dizer que penso em você ou que sinto saudades, porque essas são sensações passageiras, coisa de quem vai deixando o outro alguém aos poucos, como quem despe a roupa em direção ao quarto. eu estou inteiramente vestida de você ainda, estado permanente e imutável.
sei que houve também, ainda que eu não saiba dizer quando, um tempo em que a parte que era eu queria sair e abandonar tudo que era você. para que isso passasse logo. mas eu não poderia deixar o meu próprio corpo. eu não saberia me separar de mim mesma. ouve, você sente doer quando eu aperto aqui? porque você é uma dor física. você dói muito.
eu queria poder dormir até que meu sono devorasse você dentro de mim. imagina o meu sonho te mastigando? imagina o meu pesadelo te cuspindo? porque a cabeça precisa desistir em algum momento, mesmo quando corpo-alma-espírito-coração-seja-lá-o-quê insistem. e quando tudo sinaliza, como você pode dizer vá, esqueça? enquanto isso, no carro de alguém que não é você, eu olho pela janela e peço para voltar pra casa.
porque eu simplesmente já não posso dizer mais nada. não posso dizer pra mim, não posso dizer pra você. eu falhei, eu sei, você fugiu, você sabe, a gente se perdeu, sabemos. e por alguns momentos, eu ainda espero que você vá voltar. pra onde, eu não sei. mas são alguns momentos e a lua está tão bonita.